{"title":"PRÉSTITO DE ENCONTRO: Nos caminhares da religiosidade popular","authors":"Rondinell Aquino Palha","doi":"10.51359/2526-3781.2019.241332","DOIUrl":"https://doi.org/10.51359/2526-3781.2019.241332","url":null,"abstract":"Na Cidade de São Caetano de Odivelas, no Estado do Pará, na Amazônia brasileira, realiza-se todos os anos, durante a sexta-feira santa, o dia em que se homenageia a Paixão de Cristo, na tradição religiosa cristã, a “Procissão do Encontro”, que consiste em duas procissões: uma com a imagem de Nosso Senhor dos Passos e a outra com a imagem de Nossa Senhora das Dores. A imagem de Jesus carregando a cruz, em sofrimento, destaca o drama ritualístico realizado anualmente no período da semana santa, a narrativa mítica que aproxima humano e “deus”, fornecendo um “conjunto de representações das relações do mundo e da humanidade com os seres invisíveis” (LABHURTE-TOLRA, 2010, p.204), agora “visíveis” pelo mito, como uma “ordenação racional. Ele situa o homem em seu lugar no universo graças a um sistema de referências no interior do cosmo” (idem). O sentindo da religiosidade garante que, a cada ano, esse rito cristão, possa ser reeditado com ampla participação da comunidade, garantindo o equilíbrio necessário para o “caos” da vida, atualizando-se ciclicamente a “fundação” sagrada do mundo: “a revelação de um espaço sagrado permite que se obtenha um ‘ponto fixo’, possibilitando, portanto, a orientação na homogeneidade caótica, a ‘fundação do mundo’, o viver o real” (ELIADE, 1992, p.27). Na pequena capela de Nsa. Sra. Do Perpétuo Socorro, pessoas da comunidade oram e cantam ladainhas, antes do início do préstito. Durante o trajeto, nos deparamos com práticas diárias se misturando ao extraordinário do sagrado representado na procissão. A banda musical, composta por jovens, executa cantos religiosos, proporcionando mais ainda a participação e o envolvimento passional com o ritual religioso pela voz. A proximidade entre o humano e o sagrado fica evidente quando, a imagem de Nosso Senhor dos Passos, é protegido, da chuva, por uma capa, em virtude do fim do inverno amazônico, estação de chuvas, em ato muito significativo, uma vez que, essa atitude, “humaniza” a imagem. O ápice do ritual acontece às margens do Rio Mojuim, quando há o encontro das imagens de Nosso Senhora dos Passos e de Nossa Senhora das Dores. Neste ato, o esforço físico, o choro e a contrição ficam manifestos no semblante de cada participante da comunidade, em uma catarse que garante a perpetuação desse ritual religioso na Cidade de São Caetano de Odivelas, a cada prenúncio do verão amazônico","PeriodicalId":282576,"journal":{"name":"AntHropológicas Visual","volume":"44 1","pages":"0"},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2019-09-19","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"114294688","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
{"title":"CASA DO FORNO: instituição sócio-alimentar de Araí e Taiassuí, nordeste paraense","authors":"M. Picanço","doi":"10.51359/2526-3781.2018.236570","DOIUrl":"https://doi.org/10.51359/2526-3781.2018.236570","url":null,"abstract":"Sinopse:A casa do forno (em outros lugares do Brasil é chamada de casa de farinha) é um dos elementos mais importantes no processo produtivo que permite que a mandioca se transforme em um conjunto de bens alimentícios, como: farinha d’água, goma, tucupi, etc., que são comidas (usa-se o termo comidas e não alimentos para reforçar o traço de sociabilidade proporcionado pela comida em situações coletivas, como comensalidade) que povoam os mercados e as mesas dos habitantes do nordeste paraense e que conferem considerável importância histórica, econômica, social e religiosa no lugar. (Picanço, 2018). Desse modo, a casa do forno, materializa-se em um espaço fulcral para a história da mandioca e dos habitantes de Araí e Taiassuí (comunidades rurais e produtoras de roça de mandioca no nordeste paraense), pois, ao mesmo tempo em que se constitui em um lugar onde são “paridos” todos os descendentes da mandioca, ela também funciona como um espaço de trocas de experiências, onde o saber fazer as comidas oriundas da mandioca é ensinado, aprendido e mantido de geração em geração. As casas do forno ajudam na composição socioespacial de Araí e Taiassuí, pois onde tem uma roça, nas proximidades também se encontra uma delas. Por isso, a casa do forno, ao mesmo tempo em que é pensada e concebida como uma instituição socioalimentar, também é compreendida como uma “maternidade”, um laboratório onde os frutos da mandioca são paridos, são nascidos. Como diria Marcena (2012, p. 52), ela é o “ventre da farinha, nascedoura de todas as farinhas de mandioca preparadas e também dos beijus [...], a casa de farinha se constitui como uma instituição socioalimentar [...], desde os primórdios da invenção da brasilidade [...].” Ela também se revela um lugar de interações sociais e sociabilidades que são alimentadas em um extenso fluxo de pessoas, de distintas famílias que ali trabalham em cooperação, mas também conta com a labuta dos não humanos, que ao mesmo tempo em que são singulares, tornam-se complexos, os quais não estão simplesmente ali, eles habitam naquelas casas do forno, onde desempenham atividades laborais específicas (Velthem, 2007), das quais a mandioca depende para gerar seus frutos. São eles e elas: a gamela grande, a gamela pequena, a mão de pilão, a peneira, a prensa, as vassouras, os tipitis, os rodos, o forno e, em alguns casos, o ralo e/ou o catitu, sobre os quais “[...] há [...] nítida percepção de que trabalham” (Velthem, 2007, p. 622). Portanto são das experiências laborais, dos humanos e não humanos, que dão vida aos descendentes da mandioca na casa do forno, que “falam” as imagens deste ensaio fotográfico. sinopsis:The furnace house (in other places of Brazil and called flour house) is one of the most important elements in the production process that allows cassava to become a set of foodstuffs, such as: water flour, gum, tucupi, etc., which are foods ( the term food is used to reinforce the sociability trait provided by food in collective situations suc","PeriodicalId":282576,"journal":{"name":"AntHropológicas Visual","volume":"26 1","pages":"0"},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2018-10-25","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"123615362","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
{"title":"Imagens e memórias: o cinema no vale do Mamanguape-PB / Images and memories: the cinema in the valley of the mamanguape-PB","authors":"José Muñiz","doi":"10.51359/2526-3781.2018.231382","DOIUrl":"https://doi.org/10.51359/2526-3781.2018.231382","url":null,"abstract":"Sinopse:Este filme é parte integrante do TCC de Bacharelado do curso em Antropologia “Cinema no vale do Mamanguape: aproximações antropológicas” de José Muniz Falcão Neto. Orientador: João Martinho de Mendonça.Durante dois anos de pesquisa sai em busca de histórias que relatassem a época dos antigos cinemas da região, apesar dos anos que se passaram, ainda é viva no imaginário local e bem rememorada à época de “ouro” do vale. O filme aborda as memórias coletivas relacionadas ao cinema no vale do Mamanguape-PB. Especificamente, se trabalhou com dois cinemas específicos da região, o Cine Teatro Eldorado e Cine Teatro Orion, respectivamente localizados nas cidades de Mamanguape-PB e Rio Tinto-PB. Partindo do cinema direto e da antropologia compartilhada, o curta apresenta diversos personagens relatando suas experiências e vivências dentro das salas de cinema na região.Synopsis:This film is an integral part of the Bachelor's Degree in Anthropology \"Cinema in the valley of Mamanguape: anthropological approaches\" by José Muniz Falcão Neto. Advisor: João Martinho de Mendonça.During two years of research, he searches for stories that tell the story of the old cinemas of the region, despite the years that have passed, still alive in the local imagination and well remembered at the golden age of the valley. The film approaches the collective memories related to the cinema in the valley of the Mamanguape-PB. Specifically, we worked with two specific cinemas in the region, the Cine Teatro Eldorado and Cine Teatro Orion, respectively located in the cities of Mamanguape-PB and Rio Tinto-PB. Starting from the direct cinema and the shared anthropology, the short one presents / displays diverse personages reporting their experiences and experiences within the cinemas of the regionPalavras-chave:Antropologia Visual; Cinema; Memória.Palabras clave:Visual Anthropology, Cinema, Memory.Ficha técnica:Autor: José Muniz Falcão Neto, mestrando pelo PPGA(Programa de Pós Graduação em Antropologia)-Campus I e IV-João Pessoa/PB e Rio Tinto/PB e integrante do grupo de pesquisa AVAEDOC.Direção, pesquisa e edição: José Muniz Falcão NetoCredits:Author: José Muniz Falcão Neto, mestrando pelo PPGA(Programa de Pós Graduação em Antropologia)-Campus I e IV-João Pessoa/PB e Rio Tinto/PB e integrante do grupo de pesquisa AVAEDOC.Direction, research and edition: José Muniz Falcão Neto","PeriodicalId":282576,"journal":{"name":"AntHropológicas Visual","volume":"114 1","pages":"0"},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2018-10-25","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"124911066","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
{"title":"Territórios da saúde: memórias para o cuidado cultural","authors":"Nádile Juliane Costa de Castro","doi":"10.51359/2526-3781.2018.237482","DOIUrl":"https://doi.org/10.51359/2526-3781.2018.237482","url":null,"abstract":"Sinopse:Trago um conjunto de imagens que representam os territórios de saúde às populações indígenas pela narrativa fotoetnográfica. As imagens apresentam um dos territórios indígenas onde há atuação de equipes multidisciplinares de saúde pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no âmbito do Ministério da Saúde, por meio de um modelo que prioriza a ação dos profissionais e dos programas de saúde no território das aldeias, afirmando as políticas de incentivo a atenção básica. Esse registro foi realizado na aldeia da etnia Anambé do estado do Pará.O objetivo do registro é resgatar memórias e sensibilizar para as singularidades inerentes a esses espaços quando da atuação técnica profissional e dentro das perspectivas da antropologia da saúde. Ao observar as imagens é possível identificar condições sociais e culturais, representadas por casas regionais de madeira, arborização e rios. Na sequência das imagens é possível observar animais livres nos limites do território e os caminhos (rio) percorridos pelos profissionais de saúde para acessar a aldeia.Considerar estes fatos é importante, pois, desde a primeira Conferência Nacional de Saúde aos povos indígenas realizada em 1986, as representações vêm questionando o déficit dos profissionais quanto as habilidades e competências para atuar na área de saúde indígena. Essas assertivas e necessidades visam diminuir as iniquidades em saúde por meio de uma atuação técnica que apresente princípios que resguardem os valores culturais, saberes e o modo de vida desses povos de acordo com cada etnia. sinopsis:I bring a set of images that represent the territories of health to the indigenous populations by the photoetnographic narrative. The images present one of the indigenous territories where multidisciplinary health teams work under the National Health System (SUS) within the scope of the Ministry of Health, through a model that prioritizes the action of professionals and health programs in the territory of the villages, affirming policies to encourage basic care. This record was made in the village of the Anambé ethnic group in the state of Pará.The purpose of the registry is to rescue memories and sensitize the singularities inherent to these spaces when performing professional techniques and within the perspectives of health anthropology. It is possible, by observing the images, to identify social and cultural conditions, represented by regional houses of wood, afforestation and rivers. Following the images it is possible to observe free animals in the limits of the territory and the paths (river) traveled by the health professionals to access the village.It is important to consider these facts because, since the first National Health Conference to indigenous peoples held in 1986, the representations have been questioning the professionals' deficit regarding the abilities and competencies to act in the subject of indigenous health. These assertions and needs aim to reduce inequities in health through a technical act","PeriodicalId":282576,"journal":{"name":"AntHropológicas Visual","volume":"1 1","pages":"0"},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2018-10-25","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"129401400","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
{"title":"O Ilê Axé Nagô Oxaguiã: um Terreiro de Candomblé e Jurema no sertão (Semiárido) da Região Nordeste do Brasil.","authors":"Geraldo Barboza de Oliveira Junior","doi":"10.51359/2526-3781.2018.234953","DOIUrl":"https://doi.org/10.51359/2526-3781.2018.234953","url":null,"abstract":"Sinopse:Desde 2010 o Ilê Axé Nagô Ôxáguiã encontra-se em atividade na cidade de Caicó, Rio Grande do Norte, trazendo consigo segmento de Candomblé da nação Nagô e o segmento da Jurema.No ano de 2016, o Ilê Axé Nagô Ôxáguiã, através de seu representante, Pai Aderbal, passa a integrar o Conselho do Desenvolvimento Sustentável do Território da Cidadania do Seridó, compondo a Câmara de Comunidades Tradicionais; que agrega representantes de comunidades quilombolas, Ordem do Rosário, Casas de Candomblé.O Candomblé de Pai Aderbal está sendo visto como instituição de referência para a academia (alguns projetos acontecem em parceria com a UFRN), para a Secretaria de Saúde e Assistência Social. Houve o reconhecimento deste terreiro como local de referência de bem-estar para pessoas de baixa renda (em maior número). Na atualidade, o terreiro avança no sentido de se tornar legal juridicamente. É o primeiro passo em sua afirmação política e social enquanto instituição que agrega valores da cultura africana e ameríndia na região do Seridó.sinopsis:Since 2010, Ilê Axé Nagô Ôxáguiã is active in the city of Caicó, Rio Grande do Norte, bringing with it segment of Candomblé of Nagô nation and the segment of Jurema.In 2016, Ilê Axé Nagô Ôxáguiã, through its representative, Father Aderbal, becomes part of the Sustainable Development Council of the Seridó Citizenship Territory, composing the Chamber of Traditional Communities; Which includes representatives of quilombola communities, Ordem do Rosário, Casas de Candomblé.The Candomblé of Pai Aderbal is being seen as a reference institution for the academy (some projects happen in partnership with UFRN), for the Secretariat of Health and Social Assistance. There was recognition of this terreiro as a place of reference of well-being for people of low income (in greater number). At present, the terreiro advances in the sense of becoming juridically legal. It is the first step in its political and social affirmation as an institution that adds values of the African culture in the region of Seridó.Palabras-chave:Candomblé, Jurema, Caicó.KeyWords: Candomblé, Jurema, Caicó.Ficha técnica:Autora:Geraldo Barboza de Oliveira JuniorFotografias: Acervo do Autor: Geraldo Barboza de Oliveira JuniorDireção, Edição de Imagem e Texto: Geraldo Barboza de Oliveira JuniorFicha técnica:Autora:Geraldo Barboza de Oliveira JuniorFotografía:Geraldo Barboza de Oliveira JuniorDirección:Geraldo Barboza de Oliveira Junior","PeriodicalId":282576,"journal":{"name":"AntHropológicas Visual","volume":"17 1","pages":"0"},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2018-10-25","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"127298929","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
{"title":"OS PRETOS VELHOS DE CODÓ. UMA NARRATIVA VISUAL.","authors":"Anna Kurowicka","doi":"10.51359/2526-3781.2018.236879","DOIUrl":"https://doi.org/10.51359/2526-3781.2018.236879","url":null,"abstract":"Sinopse:Preto velho é uma categoria nativa, com a qual se denomina pessoas negras das épocas passadas no municipio de Codó, estado do Maranhão, Brasil. A noção dos pretos velhos funciona também como uma descrição étnica, como o selo do modo de vida tradicional, em grande medida autossuficiente e baseada em um bom entendimento do meio natural. Entretanto, não somente as formas de subsistência, mas também a filosofia de vida e a lógica que a guiava eram os atributos dos pretos velhos. Se entrelaçavam aqui a crença sobre a importância para as pessoas humanas da força e dos encantados (seres ou entes invisíveis da floresta), com os saberes sobre a natureza. A vida dos indivíduos e das comunidades eram construídas em função do poder de negociação com estas entidades “sobrenaturais”, estabelecendo-se relações de parentesco entre eles e os pretos velhos.Da mesma forma, a noção dos pretos velhos funciona, hoje em dia, como um marco temporal simbólico, pois faz referência ao passado e à ruptura. Os conflitos agrários, que se deram no município de Codó a partir dos anos 70 do século XX, acabaram praticamente com as comunidades negras tradicionais na região. A selva, que cobria antes todo o município, converteu-se em um gigantesco espaço de exploração pecuária. Os negros e as negras da zona rural, em sua maioria expulsos de suas terras, foram viver na cidade, desaparecendo com isto, paulatinamente, o modo de vida próprio dos pretos velhos. Um número extremamente reduzido das comunidades segue lutando por sua continuidade em um mutável, ainda que nunca realmente favorável para as pessoas negras, ambiente político do país. Pode-se observa ainda a persistência dos mesmos problemas já existentes nas épocas dos pretos velhos, situando-se em primeira linha a falta de legalização do acesso às terras ocupadas pelas comunidades negras.Também, atualmente, a denominação dos pretos velhos chegou a ser traduzida nas categorias locais à dos remanescentes de quilombos. A identidade política à que foi transmitida a descendência étnica próprias dos negros do município de Codó dialoga aqui com seu legado histórico. Revaloriza os elementos identitários dos pretos velhos à luz de seu potencial como vetores para uma melhor inclusão social. Positiviza, de certo modo, o passado e, com isto, os saberes e os fazeres dos pretos velhos. Estes ganham uma nova leitura, atualizados de acordo com o discurso do movimento quilombola presente - movimento etnopolítico dos negros que lutam por seus direitos territoriais. À continuação, o debate reivindicativo contemporâneo das pessoas negras do município de Codó sobre seu acesso aos direitos como cidadãos atravessa a revisão das memórias sobre os pretos velhos.O presente ensaio surge de uma maneira paralela à recompilação dos dados de campo no período da pesquisa doutoral em antropología, culminando com a defesa da tese intitulada: “A cor da (in)visibilidade. As comunidades negras do Brasil e as políticas de reconhecimento”. Desenvolvido e ap","PeriodicalId":282576,"journal":{"name":"AntHropológicas Visual","volume":"42 1","pages":"0"},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2018-10-25","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"126330597","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
{"title":"É O QUE GUARDO DELE.","authors":"Hugo Menezes Neto","doi":"10.51359/2526-3781.2018.231308","DOIUrl":"https://doi.org/10.51359/2526-3781.2018.231308","url":null,"abstract":"Sinopse:Em Belém do Pará, no dia 4 de novembro de 2014, o policial militar afastado Antônio Marco da Silva Figueiredo, conhecido por Cabo Pet, líder de um grupo de milícias, foi assassinado perto de sua casa, no bairro do Guamá, alvejado com 30 tiros. Logo após sua morte, circularam mensagens nas redes sociais, de membros de seu grupo, ordenando um urgente toque de recolher. As mensagens falavam sobre vingança à morte do Cabo e assustaram a cidade. Repartições públicas, escolas, comércio, fecharam as portas mais cedo. A violência começou na noite do dia 4 e se estendeu entre até a manhã do dia 5. Pessoas encapuzadas em motos e carros de cor preta atiravam indiscriminadamente matando 10 jovens, moradores dos bairros da periferia. Rapidamente a imprensa local enquadram as mortes como acerto de contas ou ao tráfico de drogas, transformando as vítimas em bandidos.A repercussão da tragédia, aliada à pressão dos movimentos sociais articulados com as famílias das vítimas, provocou a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o caso, a CPI das Milícias, cujo relatório final, atesta, em nome do Estado, pela primeira vez, a existência de grupos de milícias no Pará e sua atuação contundente nos bairros mais pobres da capital. A CPI reconhece ainda que, ao contrário do que havia sido propalado pela imprensa, nenhum dos jovens assassinados tinha antecedentes criminais, tampouco envolvimento com a morte do Cabo Pet.As famílias das vítimas selecionam, descartam, guardam e produzem objetos que são patrimônios familiares e também peças que atestam a inocência, a boa índole e o sucesso da família em formar vidas passiveis de luto. A pesquisa para o documentário se interessou pelas representações e sentidos a eles atribuídos, bem como pelas motivações, sentimentos e intuitos por trás do ato de transformá-los em objetos expositivos, dispostos em quartos e outros cômodos da casa, ou do ato de salvaguardá-los em armários e gavetas, como acervos de acesso restrito aos parentes. Por conseguinte, pelo movimento contínuo de seleção, manutenção, manuseio e ressignificações desses objetos, numa perspectiva de musealização particular que tangencia enlutamento, privacidade e intimidade.A Chacina de Belém é um emblema do movimento deliberado de extermínio da juventude da periferia e da atuação de grupos de milícias na capital paraense. O documentário registra as narrativas de quatro das dez famílias vítimas da tragédia. A partir da pergunta “o que você guarda dele?”, atentamos para as narrativas acerca da Chacina e para os processos de musealização particular ativados pelo evento crítico, encontramos, inadvertidamente, a conexão entre os acervos familiares (patrimônios afetivos) e a realidade social, além de histórias de vida que são, ao mesmo tempo, retratos do fracasso da experiência urbana e do estado de bem-estar social. O documentário é um dos resultados do projeto de pesquisa desenvolvido pelo professor Dr. Hugo Menezes Neto (UFPE), intitulado “","PeriodicalId":282576,"journal":{"name":"AntHropológicas Visual","volume":"1 1","pages":"0"},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"2018-10-25","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"133435287","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
{"title":"Por detrás de tecidos e grades: um ensaio possível do Museo Penitenciário António Ballve com a carta espacial de Mercedes Sosa","authors":"Natalia Negretti","doi":"10.51359/2526-3781.2020.248694","DOIUrl":"https://doi.org/10.51359/2526-3781.2020.248694","url":null,"abstract":"Este ensaio visual, oriundo de um percurso em torno de museus penitenciários, visa articular a vizinhança entre as duas instituições: o Museu Penitencário António Ballve e a Fundação Mercedes Sosa, ambos em Buenos Aires e instituições vizinhas. Contemplando os campos museológico e de memória, a contar de fragmentos da desativação do museu penitenciário, as frestas entre esta instituição e o espaço memorial da cantora possibilitaram registrar imagens desta relação e apresentar uma narrativa visual sobre museus penitenciários como instituições de processamento social frente às instituições penitenciárias e de memória. ","PeriodicalId":282576,"journal":{"name":"AntHropológicas Visual","volume":"80 1","pages":"0"},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"1900-01-01","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"124097921","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
{"title":"12ª Caminhada de Terreiros de Pernambuco","authors":"Elisa Victor Chaves da Silva","doi":"10.51359/2526-3781.2018.238795","DOIUrl":"https://doi.org/10.51359/2526-3781.2018.238795","url":null,"abstract":"“Contra a intolerância religiosa nós povos de terreiros saímos na rua de branco pela paz” essa foi umas das falas ditas pela Yalorixá em alto tom pelas ruas do Recife durante a 12ª Caminhada de Terreiros de Pernambuco. Pensando no registro da resistência das populações negras de Pernambuco no século atual vimos nas ruas a força do àse, palavra yourubá que possui dentre outros significados o poder de realização. O ensaio tem como intuito colocar o discurso da estética como função prática da livre expressão religiosa e política. As imagens não são meramente estéticas na função da beleza são imagens das quais possuem valor essencial dentro de cada Nação de Candomblé, cada indumentária, colares, roupas, cores, turbantes são ligados ao culto, à resistência. O fazer sentir, ouvir, ver e experenciar o caminhar das diversas gerações que vestidos de branco dançam e cantam para suas divindades nas ruas de Recife como forma de mostrar para a população, que a nação do Brasil é formada pela diversidade de crenças. Contra a intolerância de gênero, cor e religião a Caminhada de Terreiros de Pernambuco é a vivência explicita das crenças afro-brasileiras, que muitas vezes é reprimida de forma brutal. Ver jovens, crianças, velhos, gays, mulheres, homens cada um formando uma sociedade da qual muitas vezes não é reconhecida, mas que é de total importância em cada lócus sociais de comunidades, favelas no Recife. O povo preto se move em manifestação a favor dos direitos civis. Um caminhar de resistência assim como foi em Selma no EUA, como são os Filhos de Gandhi na Bahia, como é na Caminhada da Consciência Negra... O povo preto anda pela terra, àgó[i]! [i] “Àgò” – é uma contração de “Yàgò”, ou seja, dê espaço. ","PeriodicalId":282576,"journal":{"name":"AntHropológicas Visual","volume":"30 1","pages":"0"},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"1900-01-01","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"121540149","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}
{"title":"Voz dos Sinos","authors":"Thiago De Andrade Morandi","doi":"10.51359/2526-3781.2020.244174","DOIUrl":"https://doi.org/10.51359/2526-3781.2020.244174","url":null,"abstract":"A linguagem dos sinos e o oficio de sineiro é um patrimônio imaterial registrado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que sobrevive em cidades históricas, com maior destaque em São João del-Rei devido a persistência e amor envolvido na transmissão do saber popular de geração em geração, promovida pelos próprios sineiros.Este ato, que envolve, tradição, e sobretudo preservação, não só de uma forma imaterial, mas também material (uma vez que o sino também é um objeto mecânico) é o tema central deste filme, que traz depoimentos que nos levam a refletir sobre essa voz do sino, seu contexto atual e seu futuro.Este filme fez parte de um processo antropológico de criação de Thiago de Andrade Morandi, durante sua investigação de mestrado no Programa Interdepartamental de Pós-Graduação em Artes, Urbanidades e Sustentabilidade. Especificamente neste filme são explorados na prática estudos de espaço e memoria, patrimônio, acupuntura urbana, paisagens sonoras e estudos midiáticos.","PeriodicalId":282576,"journal":{"name":"AntHropológicas Visual","volume":"15 ","pages":"0"},"PeriodicalIF":0.0,"publicationDate":"1900-01-01","publicationTypes":"Journal Article","fieldsOfStudy":null,"isOpenAccess":false,"openAccessPdf":"","citationCount":null,"resultStr":null,"platform":"Semanticscholar","paperid":"113995643","PeriodicalName":null,"FirstCategoryId":null,"ListUrlMain":null,"RegionNum":0,"RegionCategory":"","ArticlePicture":[],"TitleCN":null,"AbstractTextCN":null,"PMCID":"","EPubDate":null,"PubModel":null,"JCR":null,"JCRName":null,"Score":null,"Total":0}