{"title":"Um olhar para as famlias, de dentro e de perto","authors":"H. Almeida","doi":"10.1590/S0102-69092010000100012","DOIUrl":null,"url":null,"abstract":"O que levaria um antropólogo conhecedor das vicissitudes e dos problemas de se falar da intimidade da vida alheia a pesquisar sua própria família? O que levaria então dois deles a fazer essa empreitada conjuntamente? Essa é certamente a primeira questão que vem à mente ao nos depararmos com o livro premiado pela Anpocs em 2009: Três famílias: identidades e trajetórias transgeracionais nas classes populares. Luiz Fernando Dias Duarte, professor do Museu Nacional, com um trabalho bastante reconhecido com famílias de classe trabalhadora, e Edlaine de Campos Gomes, então pesquisadora do Cebrap e agora professora da UFRJ, com estudos sobre religião, unem-se numa proposta muito particular e mesmo incomum. Não é surpresa que se inspirem na proposta de “história de família” como método proposto por um artigo citado logo no início do livro. O surpreendente aqui é a seleção das famílias. Os autores tomam três famílias – os Costa, família que Duarte acompanha há trinta anos em suas pesquisas, os Duarte, família paterna do autor, e os Campos, família materna da autora –, e a partir das histórias dessas famílias fazem reflexões antropológicas sobre relações familiares, arranjos domésticos, religião e conversões, identidades e transformações de uma geração para a outra. O único tema não explicitado no título do livro que merece destaque é a religião. O capítulo inicial logo responde à questão. Edlaine sempre foi pesquisadora de seu próprio contexto social – aluna da universidade federal, oriunda de camadas populares e da Baixada Fluminense, tornou-se informante e mesmo assistente de pesquisa sobre as periferias urbanas e a expansão do pentecostalismo. Seu aprendizado de reflexão social era, assim, dedicado a um mundo que ela conhecia de perto e do qual, contudo, ao caminhar na sua formação profissional, se distanciava cada vez mais. Com uma trajetória incomum naquele contexto social, resultante de um casal que incentivou os filhos a estudar, termina por se reaproximar da família extensa em movimento gerado pela pesquisa e pela percepção de que tinha, ali mesmo, “em casa”, casos exemplares de trajetórias de conversão ao pentecostalismo. Com esse foco em mente, a autora passou a participar muito mais assiduamente de festas e momentos de congraçamento com os parentes, e a própria motivação da pesquisa gerou novas formas de se relacionar com eles. No grupo de pesquisa, a reflexão de Edlaine Gomes levou Luiz Fernando Duarte a rever a trajetória de sua família paterna, descobrindo então que se tratava de uma família oriunda, muito mais do que ele pensava, das classes populares. Em sua análise, há certo deslocamento temporal, e mais referência ao passado do que a situações contemporâneas. Certamente foi uma escolha de Duarte para preservar a intimidade atual da família. O autor procura também tratar dos mesmos temas que Edlaine desenvolve. A terceira família, dos Costa, apesar de não ser parente de nenhum dos autores, é uma família que Duarte tem bastante intimidade por ser parte de suas pesquisas de campo há três décadas – quem já leu seus trabalhos anteriores, como seu livro Da vida nervosa nas classes trabalhadoras urbanas, conhece bem seus casos de “nervoso”. A partir dessa família, o autor reflete sobre as relações de parentesco, o cotidiano familiar, a casa, a religião, as trajetórias individuais e as transformações de uma geração à outra. Neste livro, não se usa o recurso aos pseudônimos, pois nomes e sobrenomes de cada grupo familiar são citados. Certamente, a intenção não foi expor a intimidade familiar, mas deve ter sido delicado e talvez tenha gerado mágoas a maneira tão direta em que o livro foi escrito, ainda que tenha sido tudo autorizado. Quantas vezes as pessoas com quem convivemos numa pesquisa de campo, ao verem o resultado final do trabalho, se ofendem, não compreendem e se sentem “traídas” pelo que foi dito (ou pelo o que não foi dito) e pela interpretação que fazemos de suas vidas. Ademais, “a vida” vai muito além dos inevitáveis recortes que somos obrigados a fazer durante o processo de análise. 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Abstract
O que levaria um antropólogo conhecedor das vicissitudes e dos problemas de se falar da intimidade da vida alheia a pesquisar sua própria família? O que levaria então dois deles a fazer essa empreitada conjuntamente? Essa é certamente a primeira questão que vem à mente ao nos depararmos com o livro premiado pela Anpocs em 2009: Três famílias: identidades e trajetórias transgeracionais nas classes populares. Luiz Fernando Dias Duarte, professor do Museu Nacional, com um trabalho bastante reconhecido com famílias de classe trabalhadora, e Edlaine de Campos Gomes, então pesquisadora do Cebrap e agora professora da UFRJ, com estudos sobre religião, unem-se numa proposta muito particular e mesmo incomum. Não é surpresa que se inspirem na proposta de “história de família” como método proposto por um artigo citado logo no início do livro. O surpreendente aqui é a seleção das famílias. Os autores tomam três famílias – os Costa, família que Duarte acompanha há trinta anos em suas pesquisas, os Duarte, família paterna do autor, e os Campos, família materna da autora –, e a partir das histórias dessas famílias fazem reflexões antropológicas sobre relações familiares, arranjos domésticos, religião e conversões, identidades e transformações de uma geração para a outra. O único tema não explicitado no título do livro que merece destaque é a religião. O capítulo inicial logo responde à questão. Edlaine sempre foi pesquisadora de seu próprio contexto social – aluna da universidade federal, oriunda de camadas populares e da Baixada Fluminense, tornou-se informante e mesmo assistente de pesquisa sobre as periferias urbanas e a expansão do pentecostalismo. Seu aprendizado de reflexão social era, assim, dedicado a um mundo que ela conhecia de perto e do qual, contudo, ao caminhar na sua formação profissional, se distanciava cada vez mais. Com uma trajetória incomum naquele contexto social, resultante de um casal que incentivou os filhos a estudar, termina por se reaproximar da família extensa em movimento gerado pela pesquisa e pela percepção de que tinha, ali mesmo, “em casa”, casos exemplares de trajetórias de conversão ao pentecostalismo. Com esse foco em mente, a autora passou a participar muito mais assiduamente de festas e momentos de congraçamento com os parentes, e a própria motivação da pesquisa gerou novas formas de se relacionar com eles. No grupo de pesquisa, a reflexão de Edlaine Gomes levou Luiz Fernando Duarte a rever a trajetória de sua família paterna, descobrindo então que se tratava de uma família oriunda, muito mais do que ele pensava, das classes populares. Em sua análise, há certo deslocamento temporal, e mais referência ao passado do que a situações contemporâneas. Certamente foi uma escolha de Duarte para preservar a intimidade atual da família. O autor procura também tratar dos mesmos temas que Edlaine desenvolve. A terceira família, dos Costa, apesar de não ser parente de nenhum dos autores, é uma família que Duarte tem bastante intimidade por ser parte de suas pesquisas de campo há três décadas – quem já leu seus trabalhos anteriores, como seu livro Da vida nervosa nas classes trabalhadoras urbanas, conhece bem seus casos de “nervoso”. A partir dessa família, o autor reflete sobre as relações de parentesco, o cotidiano familiar, a casa, a religião, as trajetórias individuais e as transformações de uma geração à outra. Neste livro, não se usa o recurso aos pseudônimos, pois nomes e sobrenomes de cada grupo familiar são citados. Certamente, a intenção não foi expor a intimidade familiar, mas deve ter sido delicado e talvez tenha gerado mágoas a maneira tão direta em que o livro foi escrito, ainda que tenha sido tudo autorizado. Quantas vezes as pessoas com quem convivemos numa pesquisa de campo, ao verem o resultado final do trabalho, se ofendem, não compreendem e se sentem “traídas” pelo que foi dito (ou pelo o que não foi dito) e pela interpretação que fazemos de suas vidas. Ademais, “a vida” vai muito além dos inevitáveis recortes que somos obrigados a fazer durante o processo de análise. O leitor fica, pois, imaginando os familiares católicos de Edlaine Gomes diante dos recém-convertidos ao pentecostalismo,
是什么促使一个人类学家去研究自己的家庭,他知道如何谈论别人生活的亲密关系的变迁和问题?那么,是什么促使两个人一起做这项工作呢?当我们在2009年看到Anpocs获奖的书《三个家庭:大众阶层的身份和跨代轨迹》时,这当然是第一个想到的问题。国家博物馆教授路易斯·费尔南多·迪亚斯·杜阿尔特(Luiz Fernando Dias Duarte)和埃德兰·德·坎波·戈梅斯(Edlaine de Campos Gomes),当时是Cebrap的研究员,现在是UFRJ的教授,研究宗教,他们加入了一个非常特别甚至不寻常的提议。毫不奇怪,他们受到了“家族史”的启发,这是书开头一篇文章提出的方法。这里令人惊讶的是家庭的选择。作者在三个家庭—的海岸30年前,杜阿尔特的家人陪伴在他们的研究,作者的父亲杜阿尔特,家庭,和字段,母系家族的作者—,从故事的家庭人类学反思家庭关系,安排国内宗教和转换,这个时代身份和转换到另一个。在这本书的标题中,唯一值得强调的主题是宗教。第一章很快回答了这个问题。埃德兰一直是她自己社会背景的研究者——联邦大学的学生,来自下层阶级和Baixada Fluminense,成为城市边缘和五旬节派扩张的线人甚至研究助理。因此,她对社会反思的学习致力于一个她熟悉的世界,然而,在她的职业训练中,她越来越远离这个世界。在这个社会背景下,由于一对夫妇鼓励他们的孩子学习,一个不寻常的轨迹,最终重新接近一个移动的大家庭,这是由研究和感知产生的,就在那里,“在家里”,皈依五旬节派的典型案例。考虑到这一点,作者开始更加勤奋地参与与亲属的聚会和问候时刻,研究的动机本身就产生了与他们联系的新方式。在研究小组中,埃德兰·戈梅斯的反思让路易斯·费尔南多·杜阿尔特回顾了他父亲家庭的发展轨迹,发现这是一个来自工人阶级的家庭,比他想象的要多得多。在他的分析中,有一定的时间错位,更多的是对过去的参考,而不是当代的情况。这当然是杜阿尔特的选择,以保持家庭目前的亲密关系。作者还试图处理Edlaine发展的相同主题。第三家,海岸,尽管被亲戚没有作者,是杜阿尔特的家庭一定很亲密关系的研究的一部分的场上前三十年—谁读过他的作品,像他们在城市工人阶级的生命之书紧张,对案件的“紧张”。从这个家庭出发,作者反思了亲属关系、家庭日常生活、家庭、宗教、个人轨迹以及一代人到另一代人的转变。在这本书中,没有使用假名,因为每个家庭群体的名字和姓氏都被引用了。当然,这本书的目的并不是要揭露家庭的亲密关系,但这本书的直接写作方式一定很微妙,也许会造成伤害,尽管它是经过授权的。有多少次,我们在实地研究中遇到的人,当他们看到工作的最终结果时,被所说的(或未说的)以及我们对他们生活的解释所冒犯、不理解和感到“背叛”。此外,“生活”远远超出了我们在分析过程中被迫做出的不可避免的削减。因此,读者想象埃德兰·戈梅斯的天主教家庭面对新皈依五旬节派的人,